Dicas e Turismo

Vulcão Lascar, Atacama

E vamos agora escrever sobre o último dos passeios que fizemos no Atacama, em Março de 2013, em nosso último dia em San Pedro. Arriscamos e resolvemos subir um vulcão.

O Licancabur, o mais importante de todos os vulcões dessa região, não daria para subir, pois além de precisar de um preparo maior por parte do “escalador”, eram necessários 2 dias: o primeiro até o acampamento base e o último para o ataque ao cume. Então, nos restou o Lascar!

Mas não se engane com esse “restou” e subestime a tarefa. Pois foi algo extremamente difícil para mim!

O Lascar, cujo nome significa língua cortada no idioma quechua, é um vulcão com 5.592m altura até o seu cume. E o mais interessante é que ele ainda está ativo. Suas duas últimas erupções foram em 1993 e em 2006. E ainda hoje, de sua cratera, expeli uma coluna de fumaça que pode ser vista desde San Pedro de Atacama, que encontra-se a 155Km de distância. Louco, né???

O nosso passeio começou às 6h da manhã, quando nosso fantástico guia Nicolás e nosso motorista (que acabou virando meu guia particular, rs) Don Rubens, nos pegaram em nosso Hostel, junto com um casal de franceses que fizeram o tour conosco, e seguimos para onde mora o gigante semi adormecido!

A viagem de 155Km durou aproximadamente 2 horas até chegarmos ao Lago Lejía (4.400m), onde nosso guia e motorista nos prepararam um café da manhã delicioso, com ovos mexidos e tudo mais. Estava muito frio por lá, não dava nem para tirar as luvas para segurar o copo de café, que ficava frio em poucos minutos.

Vulcão Lascar, Atacama 5

Essa parada levou cerca de 30 minutos e daí, seguimos para a base do Lascar, onde a altitude era de 4.800m. Nosso carro ficaria ali, e assim começaria a nossa ascensão até a cratera do vulcão. Subiríamos dos 4.800m até 5.500m de altitude.

O cume do Lascar encontra-se um pouco mais acima, mas não iríamos até ali, pois da cratera em diante, era necessário escalar mesmo e precisaríamos de experiência e equipamentos próprios. Portanto, o tour contempla apenas a ascensão à cratera. E mais uma vez, não subestime esse “apenas”.

O terreno que você irá subir, tem uma inclinação de 25 graus e é considerado um terreno solto, ou seja, não imagine uma escada esculpida na rocha, mas sim uma montanha com pedregulhos e cascalhos, onde terá que fincar o pé para subir e depois para descer. E terá de 2 a 3 horas para subir menos de 1Km, e 1h para descer. Nós conseguimos fazê-lo em 2:30h.

Vulcão Lascar, Atacama 9

Confesso que a cada 10 passos tinha que parar para acalmar as batidas do coração que tornavam-se cada vez mais freqüentes por conta da falta de ar. E conforme me aproximava da cratera, ficava cada vez mais difícil, pois o único ar que vinha em nossa direção, estava carregado de enxofre.

Mas o que nos ajudou muito, foi a prudência de nosso guia e a experiência de nosso motorista que com seus 60 anos, ao invés de ficar no carro e nos esperar, decidiu esticar as pernas e dar uma voltinha também, pois segundo ele, subir o Lascar de vez em quando, faz bem à saúde.

Pode imaginar a minha frustração ao ver que eu com apenas 30 anos estava morrendo e um senhor de 60, subiu quase assobiando e me incentivando a não desistir na subida… rsrs.

O segredo para mim foi subir em um ritmo bem devagar, mascando muita folha de coca. E cada vez que eu parava e olhava para baixo, pensava “olha só o quanto eu já subi. Dá pra ir mais um pouco”. E caminhava olhando para o chão, e não para cima, onde podia correr o risco de me desesperar pensando o quanto ainda faltava subir.

Obviamente, o profissionalismo de nossos guias foi crucial. Don Rubens conseguia perceber os momentos em que eu devia parar para descansar e para me dar apoio. E Nicolás nos levava sempre pelo mais seguro caminho para fazer a subida.

Para ter uma idéia do profissionalismo deles, naquele dia, subimos junto com um outro grupo, composto por um guia e dois brasileiros. Esse guia, sem feeling algum para perceber que os brasileiros não estavam agüentando, os levou pela trilha mais perigosa. O que acabou cansando mais os brasileiros e causando medo neles e em nosso grupo também que estávamos vendo eles quase escorregando e caindo. Don Rubens, na hora, deu-lhe um sermão dizendo que aquele não era um comportamento seguro. E que além de arriscar a vida dos brasileiros que com ele estavam, estava também nos assustando. E então, o guia decidiu desistir da subida e voltou com os brasileiros. Mas nós não! Continuamos a subir!!!

Nosso guia tinha bomba de oxigênio, gps e radio. Nos sentimos seguros em continuar.

Em algumas das muitas paradas que fiz, tomei alguns saches de carboidrato em gel, para não ficar hipoglicêmica. E mais próximo à cratera, foi batendo um sono terrível, por conta do enxofre que estava inalando. Mas agüentei firme.

Foi então que de repente, vi Nicolás lá em cima, a poucos metros de distância de mim, com a mão estendida e dizendo: “Vem, você está quase chegando!!!”

Eu olhei pra ele, como se ele fosse uma miragem, com a mão estendida para me puxar até onde eu nunca imaginei que chegaria. Ele me puxou, abraçou forte e disse: “Parabéns, você conseguiu!” E foi então que eu caí em lágrimas! FOI FANTÁSTICO!!!

Vulcão Lascar, Atacama 10

Ali em cima, tudo passou: o sono, a falta de ar, o frio, o sentimento de que nunca conseguiria. Tudo foi embora! E aproveitamos aquele sentimento de vitória, ao mesmo tempo em que apreciamos a linda vista do vale abaixo de nós, por um lado, e da cratera do Lascar com seus 750m de diâmetro, do outro, de onde saía incessantemente a fumarola que nos dizia: “Ei amigo, eu estou aqui, e estou ativo!”.

Após contemplarmos tudo isso, chegou o momento mais lindo do passeio, que até onde percebi, não era parte do tour, mas sim, parte do povo que ali vive e respeita muito a natureza.

Nicolás e Don Rubens, pediram gentilmente que os acompanhássemos em um ritual de agradecimento à Pachamama, a Mãe Terra!

Nos ajoelhamos no chão formando um círculo, lá em cima do Lascar, e com folhas de coca e pisco sour, agradecemos a essa entidade e ao vulcão, por nos ter permitido subir até ali, de forma segura. E foi emocionante, meu amigo! Confesso que mais algumas lágrimas foram derramadas aqui.

Nos levantamos e em 40 minutos fizemos a nossa descida! Foi uma aventura e tanto!

Antes de voltarmos ao hostel, fizemos ainda mais uma parada em um povoado onde hoje é possível ver apenas rastros de suas construções, pois tiveram que ser deslocados de lá, por conta da erupção do vulcão.

Dicas

- Se você fuma, dê uma diminuída no cigarro uns três meses antes. E com esse mesmo tempo de antecedência, transforme seus treinos de academia em algo mais aeróbico, para melhorar sua capacidade respiratória. Na altura em que chegamos, já se sente sim o efeito da altitude. Franco sentiu bem menos do que eu. Apenas se cansou mais. Mas eu confesso que pra mim foi duro.

- Levei muitas coisas de coca para subir: balas, folhas e uma garrafa com chá.

- Leve uns saches de carboidrato em gel para tomar de vez em quando na subida. Tudo o que você menos precisa é ficar hipoglicêmico nesse momento.

- Se você se cansar, apenas pare, não se sente no chão. Eu o fiz uma vez e logo percebi que foi uma besteira no momento em que ouvi Nicolaás, Don Rubens e Franco dizendo: “Nãããããããooo”. Isso porque muito provavelmente sentiria tontura ao levantar. Portanto, não sente no chão, apenas apóie em algumas pedras que encontrar pelo caminho.

- Leve água também e beba em pequenos goles. Ela ajuda a amenizar o efeito da altitude.

- Deixe esse passeio para o seu último dia por lá. Vai ser necessário se aclimatar um pouco antes de fazê-lo.

- Agasalhe-se bem! Aqui faz muito frio. E não esqueça de levar óculos de sol para se proteger do vento que sopra carregado de pedrinhas, e um cachecol para proteger o nariz e tentar filtrar um pouco o enxofre do ar ao respirar.

- Não desça tão rápido quanto eu desci. A descompressão em pouco tempo te causa uma dor de cabeça terrível.

- Definitivamente escolha uma boa empresa para fazer esse passeio. Aqui é necessário estar acompanhado de pessoas experientes e prudentes. Sem dúvida alguma te indicamos o Ayllu, e Nicolás e Don Rubens. Eles foram fantásticos. Além do Nicolás, tem também o Renato que é outro guia do Ayllu, totalmente preparado para essa atividade também. Mas dessa vez não tivemos a oportunidade de fazer com ele. Mas fica a dica de que ele também está preparado para isso.

- Se conseguir fazer esse passeio, não hesite e faça. Subir um vulcão ativo é uma das melhores sensações do mundo. Você deveria experimentar.

Links externos

Fizemos o nosso passeio com a Ayllu Expediciones.


3 Comentarios

Ótimo post!! Fiquei com vontade de subir esse vulcão tb =)

Feito por Diego — 30 de novembro de 2013 @ 11:58



Muito tooop. Estou indo para o Chile dia 02/07/2014 e quero muito fazer esses tours pelo deserto, mas gostaria de saber, por favor, quanto tempo durou esse passeio pelo vulcão (desde a saída do hostel até a volta para o mesmo) e se você sabe se esses passeios são feitos normalmente no período de inverno, já que vou em julho? Adorei as dicas deste blog. Obrigado e excelente post.

Feito por Adriano Cézar — 16 de abril de 2014 @ 12:18



Olá Adriano, recomendo que faça esse passeio mesmo. E ainda mais com a empresa que fizemos, pois o guia, Nicolás, foi extremamente responsável em tudo. Sobre a duração do passeio, saímos do hotel por volta das 6h e retornamos por volta das 13h. Abraços e boa viagem!

Feito por admin — 17 de abril de 2014 @ 09:47



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